Regina Silveira-Projeto, 2002.
Exposição no CCBB, SP.
LUMEN
O eixo da exposição é a obra LUMEN, uma narrativa visual concebida em conexão com a arquitetura interior do edificio do centro Cultural Banco do Brasil, Desenvolvida em dois tempos, esta narrativa tem como tema a grande claraboia de vidro que ilumina os tres andares do predio, e que no edificio de Ernesto Pujol é sem dúvida o elemento arquitetônico mais determinante da configuração de seus espaços internos.
O primeiro tempo da narrativa visual inicia na propria claraboia, (com sua luz alterada por um filtro localizado acima dela, no quarto andar) e ocupa o vazioa arquitetônico ovalado debaixo dela, estendendo-se em movimento descendente, até o primeiro andar. A operação principal no vão central do edificio é a descontrução da imagem da claraboia, ou seja, seu estilhaçamento e recomposição como imagem luminosa de grande formato a ser projetada sobre as paredes e tetos dos diversos andares.
A composição estilhaçada resultará de um conjunto de fotografias da claraboia, tomadas de diferentes pontos de vista, e depois combinadas e tratadas como colagem digital apta a produzir uma transparência de 18cm x 18 cm para uso em projetor Pani, (de grande potência luminosa), Espera-se que a imagem projetada (com capacidade de expandir-se para cerca de 10 metros nas duas dimensões) se comporte como uma camuflagem luminosa que reveste topograficamente o interior do edificio . Sob determinados ângulos , contudo, o estilhaçamento deve aparenta r estar destacado das paredes e tetos e adquirir uma visualidade próxima à da queda livre e imaginária dos estilhacos luminosos, vindos da claraboia localizada acima.
O segundo tempo.da narrativa visual é LUMINÂNCIA, a parte que se localiza no subsolo, mais precisamente nos espaços do cofre, entendido este, no contexto do CCBB, como o próprio coração do edifício, por suas funções importantes para o perfil anterior da instituição.
No subsolo, fisicamente separado dos espaços superiores afetados pela claraboia, a presença da claraboia estilhaçada se entenderá como uma consequência do movimento descendente da LUMEN. Virtualmente colocada dentro do cofre, a imagem fragmentada e luminosa da claraboia deriva de dois backlights afixados nas aberturas das duas portas metálicas e fortemente iluminados por trás, isto é , com fontes luminosas instaladas no interior do cofre.
A luminosidade do elemento capturado no interior do cofre será continuada no espaço circundante por meio da expansão da mesma imagem estilhaçada, agora preparada em versão digital, para impressão em plotter sobre vinil auto- adesivo. Aplicada como se fosse papel de parede e tapete, a imagem impressa no vinil deverá camuflar as paredes e o chão da área imediatamente anexa às portas do cofre, perdendo-se no escuro do corredor circundante . e avançando( como especie de forração) para o chão iluminado da ante-sala que lhe dá acesso.
(Tres instalações na sala em “ L”, do segundo andar)
QUIMERA
A instalação QUIMERA é a versão espacializada de um paradoxo visual antes explorado graficamente na gravura Lâmpada,(1997), na qual a imagem fotográfica de uma lâmpada acesa está circundada por sua grande sombra negra. Em QUIMERA a imagem fotográfica da lampada acesa, com luz amarelada, e suspensa por um fio, foi transposta a um gobo dicroico com qualidade fotografica, para ser acoplado a um projetor helocoidal. Projetada na parede, a imagem sugere um espaço em profundidade, isto é, um lugar fictício, situado dentro da parede , onde a imagem aparece pendurada,, com caráter de fantasmagoria.
Na instalação QUIMERA o paradoxo anterior ganha uma complexidade a mais, pela inversão espacial produzida pela sombra que, com origem na lâmpada acesa, parte do espaço embutido na superficie da parede, ganha corporeidade e invade as paredes e o chão do espaço real da sala.
PULSAR
A peça é uma montagem espacial formada por dois componentes:
uma caixa de fósforos da marca Fiat Lux com uma pequena lâmpada (ou fibra óptica) embutida e que, passando por uma abertura em forma estrelada, feita na lateral da caixa de fósforos, produz na parede uma pequena projeção luminosa na forma de uma estrela,
a projeção luminosa de uma estrela alongada,, realizada por meio de um gobo acoplado a um projetor helicoidal e posta em conexão direta com a pequena estrela projetada pela caixa de fósforos.
A intenção da montagem é sugerir que a caixa de fósforos é um nascedouro de estrelas.
DOUBLÉ
A instalação DOUBLÉ trata da natureza das cópias e dos duplos , por meio de uma visualidade ambiental que proporciona a comparação visual de duas formas simples, uma real e outra projetada.
Dois cubos, um deles construido em madeira ( com arestas de 1,20m) e portanto com existência sólida no campo perceptivo do observador e outro, realizado como imagem fotográfica projetada por um gobo dicroico, se situam lado a lado, num espaço triangular, fechado e tomado pela sombras proprias e projetadas dos dois sólidos geométricos.
Quando vistos lado a lado, a similaridade ambigua que se estabelece entre eles deve permitir uma duplicação oscilante, ora do construido ora do representado,.
(Projeção dupla de DVD, na sala do terceiro andar)
LUNAR
O trabalho tem como fundamento uma animação digital, em DVD, realizada em colaboração com o artista Ronaldo Kiel, para uma das coreografias do espetáculo REMAP, pelo grupo Anita Cheng Dance, em Fevereiro de 2002, no Joyce Soho, em New York.
A nova configuração da animação digital original , sua sonorização e o arranjo em loop com 11” 6” de duração, é uma realização do grupo OLHAR PERIFERICO, de São Paulo. ,Em LUNAR dois projetores de video projetarão a mesma sequência em loop, mas em tempos distintos e invertida em espelho, sobre duas paredes dispostas em ângulo reto,
LUNAR consiste na animação combinada de duas esferas construidas digitalmente, que rolam devagar, junto ao chão. Cada uma delas nasce diminuta,, no base de cada parede e depois cresce até atingir uma medida aproximada a 1,50m de diâmetro.
A combinação aleatoria das duas projeções vai produzir um campo aberto de possibilidades para a visualidade das esferas em movimento, Embora estando sempre presentes as duas esferas, uma em cada parede, elas estarão por vezes juntas, e outras vezes rolam separadas, paralelas ou assimétricas. Tambem poderão mostrar diferentes tamanhos, quando uma delas , ou mesmo as duas, estiverem crescendo ou descrescendo em direção a uma suposta “Linha de Terra”, sugerida no encontro das paredes com o chão . (No sistema da Perspectiva, a “Linha de Terra” é a linha imaginária que limita o Plano Geometral , corre paralela à “Linha do Horizonte” e, como ela, está situada no infinito).
Pretende-se que no ambiente da projeção os proprios projetores de video ou uma iluminação fraca e rasteira, possam eventualmente lançar as sombras projetadas dos espectadores sobre as paredes onde as esferas se movimentam.
(Intervenção luminosa em janela do saguão, no andar térreo)
LUZ/ZUL
A instalação LUZ/ZUL é uma obra acoplada a um elemento arquitetónico especifico, no saguão de entrada do CCBB.
Criada especificamente para funcionar em conjunção com uma das janelas do saguão, LUZ/ZUL propõe uma ficção luminosa, contruida como falseamento de uma fonte de luz real : a janela e a luminosidade que pode projetar no ambiente interno do edificio . Nesta instalação, a luz e a luminosidade trocam de papeis , com base numa interpolação na qual um do termos é propria luz, configurada e apresentada como a palavra “LUZ”, significando a si mesma.
Nos vidros da janela fechada um filtro de luz, consituido por um filme adesivo de cor azulada, deixa passar a luminosidade vinda de fora por suas partes recortadas manualmente ou com plotter de corte, na forma da palavra “LUZ”. Na parede que fica junto à esta janela se situa uma projeção luminosa da mesma palavra, que, contrariando a expectativa criada pelo recorte no filme, não provém da janela, mas de um projetor helicoidal portando um gobo recortado com a palavra “LUZ” e colocado obliquamente ao lado da janela.
Fantasmagoriasa da Luz
Adolfo Montejo, 2003.
"Cuando las sombras hablan, la luz
escucha o simplemente se hace negra,
vuelve al origen de los movimientos.
Las interpretaciones comienzan el mundo
de las no palabras. ¿Su doble, el negativo
de la presencia? Las últimas dudas
están lanzadas a un ojo que desciende"
AMN
"A visibilidade total é uma armadilha"
Olgária Matos/Michel Foucault
"A harmonia invisível é mais forte do que a visível" 1
Heráclito
I
Poucas poéticas são tão abrangentes e tão coesas ao mesmo tempo, tão ciosas de seu cerne, como a de Regina Silveira. A soma de olhares que produz repousa num desdobramento quase caleidoscópico que não deixa de guardar surpresas, pois
se trata de uma produção artística que costuma ultrapassar expectativas, e até contrariá-las. Por outro lado, a múltipla variedade de meios, suportes e recursos não faz senão aumentar o tamanho do ratio expressivo desta poética, que tem umas preocupações constantes, uns denominadores fulcrais na arquitetura, a crítica e a ironia da imagem - de seus substratos/códigos representacionais -, assim como a análise do sentido da presença/ausência na obra de arte. A perspectiva que concedem várias décadas de trabalho artístico permite ler as obras num movimento contínuo de relacionamento, no qual umas peças se imantam com outras, estabelecem pontos de conexão ou suas próprias afinidades eletivas. No fundo, toda obra é uma cartografia, a construção de um mapa que representa um pathos artístico. Nele, os três conceitos apontados funcionam como articulações, nexos entre umas obras e outras, às vezes aparentemente tão distantes.
Nesse sentido, a nova obra Quimera talvez seja uma das mais exemplares em seu desdobramento, já que parte de uma obra gráfica, como matriz primeira (há sempre um imenso bastidor de estudos, esboços e desenhos de cada obra, como uma exposição permanente de work in progress). Do reconhecimento de que os objetos utilizados pela artista participam de uma atenção dupla, pode-se perceber às vezes a escuta de sua configuração interna passível de transformação (enigmas, louças, armarinhos...); já em outros objetos, há a incidência em sua configuração do espaço (In absentia, 1982/1986, A Lição, 2002...) 2. Ainda que não exista uma obra simétrica ou de leitura unívoca das coisas por parte da artista, há projeção imaginária criada, virtual ou real, que transmuta seus termos — aliás essa porosidade real/virtual é uma acentuada caraterística de sua poética. Quimera oferece conteúdo/forma para uma lâmpada: um sonho da lâmpada que poderia parecer uma magia de Aladin (Quimera estava na gravura da Lâmpada -1997 -, mas faltava aparecer, ter outra dimensão). Como acontece ultimamente, tudo é real e ficção ao mesmo tempo (ainda que Fernando Pessoa tenha sido quem melhor o intuiu no começo do século passado): a lâmpada, o espaço, a sombra, mas também a própria luz/projeção. O trabalho da artista ganha ainda mais tridimensionalidade, outra noção de espaço criado com uma conjugação nova de elementos compositivos. E a conseqüente ironia: é a lâmpada que produz sombra, e ela é desmedida, amplificada, não tem correspondência objetiva. A lâmpada vira um sino/signo fantasmagórico. Reinstala-se um firme paradoxo artístico em uma obra fundamentalmente visual, digamos até profundamente óptica, a conceitualização do olhar é patrimônio de outra percepção, tem outra condição.
Estamos também diante de uma obra de natureza paradoxal porque reafirma cada vez mais sua força expressiva, sua presença, através de obras construídas sobre a ausência, ou, dito de outro modo, com o negativo da presença (o que representam as sombras, as projeções como desnudos da luz), seja vindo de uma luz imaginária ou não, pois em Claraluz Regina tem realizado um novo tour de force expressivo, convertendo a luz real em imaginária, deslocando os pontos de incidência e refração, ao contrário de tantos trabalhos com sombras em que estas iluminam a falta de referente real. Na sua estratégia artística, pode-se constatar que a primeira operação que se produz na sua imagética é um esvaziamento, uma redução ou eliminação de valores reconhecidos, depois um preenchimento, uma instauração de outro imaginário (curiosamente, as sombras fazem essa função dupla: esvaziam e preenchem). Obra desconstrutiva e construtiva ao mesmo tempo, des e rematerializadora, que tem a ver com o marcado caráter de ausência e presença alternada desta obra, como o papel contextual e cultural da imagem que trabalha a artista como uma superposição visual/conceitual. A imagem mental é a parte latente da obra, que funciona como um "fantasma superposto". Tem caráter de "ideograma visual": o ausente está imbricado no oferecido como presente (ambas as expressões entre aspas são da própria artista) 3.
II
O fio anteriormente insinuado das relações permite estabelecer algumas outras correspondências que podem ser enunciadas como um breve exemplo: os recortes de madeira de mobiliário - de parede -, Inflexões (1985, 1988), já prefiguram o passo posterior dado com as Dobras (2002). Como se pode fazer o movimento inverso: com Descendo a Escada (2002) é possível retornar até A Escada Inexplicável II (1999). Por outro lado, tanto Middle Class & Co. (1972) como Destruturas Urbanas (1976) latejam uma preocupação cidadã que - com as projeções de Transit (2001), ou Super-Herói (Martin, o nome é esse mesmo?) (1997), ou a intervenção de Blindagem (2002) - se torna ainda mais evidente. Aliás, a própria cidade já está em outras primeiras gravuras, cartões-postais, ou naquela performance do impossível folheto imobiliário, de tal maneira que o espaço urbano como paisagem, sempre emblemático da cultura contemporânea (de vida, poder e movimento), recebe diferentes leituras da artista; desde o começo ele vem participando da estrutura dos trabalhos. É um aspecto cada vez mais relevante que a dimensão urbana ou pública de várias peças tenha atingido nos últimos anos uma forte presença (expressão disso são as pontuais participações nas edições Arte/Cidade de São Paulo).
E é esta mesma cidade que pode nos levar a um de seus símbolos maiores: a arquitetura - núcleo importante na poética de Regina Silveira -, pois é significativo a esse respeito que sua obra tenha atingido prédios, ruas, espaços exteriores através de intervenções, apropriações, site specific - e uma boa prova sem dúvida é esta específica exposição no CCBB de São Paulo -, superando a escala de uma parte anterior de sua obra. Se o conceito de arquitetura tem essa importância é na medida em que é co-fundamento de numerosas obras, tanto como elemento visual constituinte quanto como elemento construtivo. É o que acontece com as imagens fotográficas de Daniel Canogar, inscritas em elementos arquitetônicos (o artista espanhol dedica dobrada atenção às sombras, às projeções e à desarticulação do corpo como representação). Assim como há obras que entram nas características específicas de interior (Escadas, Símile, 1988, Captura ou Auditório, Office Furniture), que deslocam a posição e a geometria de poder de escritórios, através de um certo abismo vertical representacional, há obras-arquitetura que serpenteiam o exterior versus interior - neste sentido a janela é um lugar ótimo de fronteira, e motivo de vários trabalhos: Behind The Glass (1991), Solombra (1990), Vórtice (1994), Todas las Noches (1999), Equinócio (2000, 2002), ou Lumem, ou Luz/zul de Claraluz (2002). No caso de Lumem/Luminância, a transformação do lugar é
efetuada justamente pela releitura de uma fonte luminosa, a clarabóia, e através de uma multiplicação que não é só visual mas também espacial: a intervenção "desestabiliza o nosso entendimento desse espaço", apontou Martin Grossmann nas primeiras linhas do projeto desta exposição. A fragmentação de luz da clarabóia tem seu reflexo na transparência e funciona também como opacidade, na medida em que incorpora as sombras que as próprias projeções geram no prédio (duas projeções). Ela tem algo de caleidoscópio, pois o vidro divide-se em várias partes, quebrando a luz de tal forma que a luz recebida é recortada em sua projeção. Ao mesmo tempo, a clarabóia situada na fronteira do prédio recebe a luz e também a projeta, a luz exterior passa a ser interior. No entanto é outra chegada da luz e outro lugar da imagem o que produz Lumem/Luminância: uma nova iluminação do prédio que se metamorfoseia, ganhando uma pele de luz multiplicada pelos diversos andares. Por outro lado, a luz, que tem uma natureza aérea, ganha uma fisicidade própria, uma topografia espacial (lembremos de Solombra e de Equinócio, com as quais forma uma trilogia), o que é ainda mais evidente em Luminância, uma transformação de Lumem. O cofre como lugar fechado por excelência, ao contrário da natureza da clarabóia, vai quase desaparecer na "colagem" procedente de Lumem. Se as portas do cofre desativado já são só referência simbólica, com a nova intervenção tornam-se mais irreais, puro relevo arquitetônico em seu isolamento topográfico: o conteúdo do cofre agora são imagens aéreas, luminosas - são
as portas, o único acesso que se guarda do antigo local. O próprio tempo do edifício e sua clarabóia transformam-se com a fragmentação dessa apropriação, desse site specific que se multiplica (Claraluz como exposição são vários site-specific).
Nesse ponto, pode-se observar que a passagem da projeção no chão ou na parede, à superfície múltipla da arquitetura, à tela dos prédios, produz-se pela forma como as sombras ocupam naturalmente a arquitetura, dialogam naturalmente com os espaços tridimensionais. De modo aparentemente semelhante, Georges Rousse "interpreta" espaços arquitetônicos, porém de um jeito mais metafórico e através de fotografias. De qualquer maneira, existe uma consciência arquitetônica em comum, já declarada na mesma fase de construção e na leitura conjunta e ambivalente dos volumes arquitetônicos e escultóricos, sempre com a diferença de que o artista francês é um fabricante de ilusões e a artista gaúcho-paulistana tem uma estética desilusionista.
Ao mesmo tempo, a geração de "projeções" de Regina Silveira - seja de sombras, seja de outras imagens — visa a um curto-circuito entre sentidos estabelecidos e à realização de outra leitura dos signos da cidade, processando dentro do trabalho questões de uma ordem que não é só artística mas também social: situações urbanas onde o movimento fala tanto quanto o lugar (Transit, Blindagem). Sem esquecer o regime predominante de imagens que a dinâmica da cidade estabelece como cânone visual — o domínio da propaganda e da publicidade — e onde a imagem artística se situa — como intervenções estético-críticas -, sua obra aproxima-se de artistas como Antoni Muntadas 4, de seus
"contramonumentos", ou de Krzystof Wodiczko, para quem "os monumentos são sempre um meio convertível em tela", em espaço-suporte público de discussão ético-estética. A esse respeito, é bem significativa a negativa de Oscar Niemeyer à projeção de O Enigma do Duque (1995) sobre um dos prédios do Memorial da América Latina de São Paulo, deixando a obra em suspenso. Talvez a proibição fale mais alto ainda que o
propósito inicial da mesma obra 5.
III
Relendo a segunda epígrafe, vemos que na obra e na atitude de Regina Silveira há uma estética com consciência crítica que reconhece essa impossibilidade visual totalitária. De fato, sua obra parte da premissa contrária: demonstrar a falácia que significa toda representação. A mudança de percepção operada nesta obra passa muito pela quebra da visibilidade total, daquele "sonho" que a pintura cubista já ajudou a romper com um primeiro sismo, demonstrando um relativismo visual, muito mais que um absoluto artístico. De fato, o iceberg que toda imagem é recebe com Regina Silveira uma nova
exploração e pensamento. Todo seu percurso do estudo das sombras, já suficientemente analisado, explicita muito bem a desconstrução de um sistema visual, assim como uma
ética/ontologia própria da imagem (reflexões sobre a função e a natureza dela).
"As representações são formações, mas também são deformações" (Roland Barthes). A frase serviria tanto para Nelson Leirner como para Regina Silveira, porém para funções
diferentes. Assim como a representação sempre tem uma raiz política, uma nervura ideológica, a investigação crítica de muitas obras de Regina não faz outra coisa senão desvelar a superfície racional da representação, ironicamente, com uma aplicação que alia poesia e racionalismo, geometria e imaginação, materialidade e imaterialidade. Na indagação da natureza lingüística da representação, deduz-se toda uma revisão do que Victor Burgin chama acertadamente de "a política da representação", como um dado eminentemente cultural. A ironia artística da obra de Regina Silveira inscreve-se na
formulação desta crítica como recurso de desmitificação do status da imagem e de suas armadilhas culturais, assim como de desliteralização imagética. Todas as anamorfoses e
reflexos são distorções-desvios de uma literalidade perceptiva, em que a ironia funciona como forma oblíqua de afirmação. Como "estratégia de interpretação" ela é "simultaneamente disfarce e comunicação" (Linda Hutcheon), distorção e inversão.
A reconhecida "oscilação entre o dito e o não dito" 6 é a terceira nota semântica que defende a teórica norte-americana como característica desta figura (o itálico é ênfase nosso), é a disjunção reflexiva entre o implícito (presença) e o não-implícito
(ausência) das imagens, com o positivo e o negativo (visível e invisível da obra), que se estabelece nesta poética como questão importante. A sua correspondência visual e a sua conexão conceitual criam um campo de tensão estética (verdade-mentira) em que a objetividade nunca está de todo presente ou completa.
IV
Depois da bela divisão recentemente realizada por Fernando Cocchiarale sobre seu trabalho (em que o crítico assinala uma vertente que "explora o caráter planar — não-sólido - da incidência da sombra no espaço; e a segunda, bem mais recente, que trabalha o papel da sombra na construção e na percepção do volume") 7, pode-se acrescentar uma terceira vertente que ultimamente se vem manifestando como projeção da sombra da luz (bem insinuado na gravura da Lâmpada). Apesar de reconhecer que a sombra — muitas vezes bidimensional e tridimensional — não era senão uma luz negra no fundo; já não é a sombra que projeta a luz - as sombras iluminavam -, agora há um novo especular da imagem, quase ensimesmada, que convoca para um maior plano de dúvidas estéticas (Doublé, Lunar, Quimera são obras interrogativas sobre sua própria natureza de realização e, nesse sentido, são metapoéticas artísticas.)
Trata-se da criação de um espaço interregno, surgido da aparição de uma imagem que é real, tridimensional, e outra que é fictícia, projetada, como um duplo (Doublé, Equinócio de Estratégias para Deslumbrar), e portanto um novo âmbito do espaço. A última obra de Regina Silveira é medida por uma maior ocupação de ambientes - espaços amplos -, entre a realidade e seus duplos, onde o público tem maior presença e há uma incorporação de elementos tecnológicos de alta precisão que retrabalham as composições como naturezas híbridas (Quimera ilustra com seu jogo de projeção-objeto-sombra espacial). Todo o conteúdo da exposição de Claraluz é enfático nesse sentido, aumentando a porcentagem de virtualidade, de perplexidade visual.
Assim como há um momento importante nesse "discurso das sombras" em que algo físico, real, aparece para esse diálogo com as sombras (The Saint's Paradox, 1994), essa aparição de objetos tridimensionais vai ter continuação na entrada de uma maior realidade exterior nas obras. Equinócio, por sua vez, introduz uma mudança, um giro que cria outro eixo: obras que se vão espelhar entre si, fazendo duvidar de onde vem a
fonte originária da obra (aliás, o primeiro Equinócio tem a ver com Solombra, possui uma narrativa de deslocamento, enquanto o seguinte Equinócio não — está muito mais próximo desta exposição). De qualquer forma, tanto Solombra como Equinócio são verdadeiras matrizes dos novos caminhos. Outro tipo de composição na poética de Regina Silveira. Em ambas produz-se, introduz-se uma dúvida de inegável sabor
magrittiano. Uma obra-miragem, feita sobre a dúvida da representação e da reprodução. Começa-se um novo diálogo, outra encarnação das sombras, um âmbito maior: eclipses,
cosmologias, que saem do âmbito do objeto, seja cotidiano, seja de arte. A esse respeito, a figura da esfera atinge nos últimos trabalhos certa onipresença. E a chamada sombra
arquitetônica - tanto dentro do prédio como fora - que às vezes tem a presença inesperada de uma pintura abstrata gestual de um Franz Kline (ver "pintura-arquitetura" interior de Cor-Cordis, 2002). Esse desenvolvimento permite à sombra "ocupar" a arquitetura, modificar interiores, e talvez nenhum exemplo mais paradigmático que o projeto Todas las Noches (1999), obra que recolheria os brancos das noites – um museu habitado pelo que a luz da noite produz: um museu de sombras. De alguma maneira, pode-se considerar essa obra-projeto também uma divisão de águas. Como continuam
sendo as Dobras (2001), dobradiça e caminho nessa produção artística — misto de sombra e de objeto nas palavras da artista —, uma obra fronteiriça, em que a fantasmagoria dos móveis — quase móveis-bichos — traduz uma estranheza cotidiana que não deixa de ter um ar surrealista, já presente nos Enigmas e nas Louças.
A nova projeção da imagem é a enfatização do lado virtual que as sombras de Regina Silveira já tinham, quase uma extensão das metamorfoses, nas quais o lado real duvidava ou se equilibrava com sua aparência. As projeções de luz são novos caminhos: outra ficção dentro da obra (lembre-se que o desnudo da sombra é a luz). Trata-se sempre de uma ampliação da representação — um dos problemas maiores da arte contemporânea, já que tanto representação como reprodução são duas instâncias que são alteradas e permutadas periodicamente nessa obra.
V
Regina Silveira sempre estabeleceu um jogo de distâncias em seu trabalho, no sentido mais lato. Tanto que as maquetes e as últimas obras de grandes dimensões são as duas
antípodas mais claras (por não falar das Louças em contraposição aos Dilatáveis). Há portanto um certo efeito "Gulliver" nas dimensões apresentadas: as obras são
superdimensionadas, e as maquetes, obrigatoriamente reduzidas ou diminutas. Nesse percurso oscilatório de trabalho, Dilatáveis é referência de novo, enquanto o tamanho das
sombras é o que constrói a efetividade das outras imagens. No fundo, A Lição revela, mais que outras peças, que é uma grande maquete, em que nos diminuímos — temos uma visão swiftiana, irônica, de nossas medidas —, como se acabássemos de chegar a um lugar com distintos referentes e escalas. Essa condição de volume incrementado faz parte da idiossincrasia da peça, sua maior ironia (no outro pólo se deveria lembrar
outro trabalho marcante: Cruzeiro do Sul de Cildo Meireles, que também faz do tamanho um recurso expressivo). E de novo em Pulsar há um enfático jogo de escalas (e lembre-se na história da arte brasileira de outra coincidência, a emblemática obra de Cildo Meireles, Fiat Lux), uma obra minimalista dentro do conjunto apresentado nesta exposição, que como um poema-objeto visualista celebra um "ato poético":
ser nascedouro de estrelas.
Poder-se-ia dizer que Regina Silveira já fez seu próprio elogio da sombra. Agora já sabemos que ler as sombras é projetá-las uma vez mais, estabelecer uma nova correspondência entre a fonte "luminosa" e seu resultado. A Lição, como penúltima obra e ironia estética sobre a retórica, ainda é outra verdadeira assombração das sombras. Agora, com Claraluz, se destaxonomiza qualquer inventário anterior 8, sobretudo aquele mais reconhecido que representa as sombras construídas com suas particulares deformações. Agora há maior contaminação dos elementos através de sombras que
funcionam como espaços e nexos ao mesmo tempo. Há maior ênfase na "duplicação"/ilusão/multiplicação de imagens. A exposição apresenta uma fantasmagoria da luz, quase uma ode à luz, em que a própria palavra é determinante (Claraluz, Luz/zul, Lumem, Luminância, Lunar), como raízes pós-concretas de um mesmo poema denominador. O que oferece Claraluz na poética de Regina Silveira é a possibilidade de um díptico artístico, já que o outro lado das sombras é a luz, a matéria por excelência do desassombro, da desocultação — o termo que Heidegger utiliza para o desvelar da obra de arte. A tarefa é antiga e contemporânea: a destruição da cobertura das coisas para chegar à evidência. É muito significativo que a palavra alemã Schönheit signifique "belo" e "aquilo sobre o que a luz cai". Claraluz tem essa mesma dupla objetividade na obra de Regina Silveira, possui essa potência simbólica, já que na própria poética de suas imagens está fundada sua ontologia. Dessa forma todas as imagens novas acabam modificando a imagem domesticada, realizando uma metamorfose, uma transformação de sentidos que desautoriza qualquer totalidade visual ou conceitual. A chegada dessas sete imagens-limiar de Claraluz coloca nossa percepção numa nova fronteira: a de perceber a dimensão dos "enigmas visuais" construídos. Essa operação poética de sua obra que sempre subjaz está por cima de qualquer outra consideração interpretativa.
NOTAS
1 - O poema, dedicado expressamente à obra da artista, faz parte do livro Enquanto Passa o Vento, que será publicado pela editora Nankin, São Paulo. Aqui se apresenta na versão original em espanhol. A epígrafe de Olgária Matos pertence ao texto A Vigilância da Visão, suplemento Mais!, Folha de S.Paulo, 17/8/1997. O fragmento de Heráclito é o número 54, em tradução de Emmanuel Carneiro Leão.
2 - Tanto as obras Enigmas e Anamorfas quanto o uso de louças como suporte supõem uma intrínseca leitura do objeto - numa época em que este virou gênero artístico -, até
porque muitas vezes ele mesmo não aparece, somente uma pré-configuração. Também muitas das maquetes não são só o primeiro cerne das obras, mas poemas-objeto pela dimensão e conceito. Alguns objetos, por outro lado, figuram como elementos ou ícones de arte e ganham releitura como em In Absentia: Masterpieces. Nessa série, Regina Silveira desenvolvia várias ausências: deixava o pedestal vazio, abandonado pela escultura contemporânea, e dessa ausência nascia uma projeção de sombra de algo que não estava presente, mas que se insinuava na "falta" do objeto.
3 - Depoimento por e-mail de Regina Silveira ao autor em 3 Questões, 15/12/2002.
4 - São várias e diversas as sintonias entre Antonio Muntadas e Regina Silveira merecedoras de maior análise. Sirva aqui uma divisa do artista catalão, que bem poderia ser assinada pela artista: "Atenção: a percepção requer participação".
5 - Esta obra com aquela que poderia ter sido realizada no Museu de Monterrey, Todas las Noches, são os dois projetos que ficaram pendentes com uma latência de signo político.
6 - Linda Hutcheon, Teoria e Política da Ironia, Ed. UFMG, Belo Horizonte, 1990, págs. 92, 95 e 141.
7 - Fernando Cocchiarale, Transbordamentos, em Regina Silveira, A Lição, Galeria Brito Cimino, São Paulo, 2002, pág. 43.
8 - "Cuando las sombras hablan", Adolfo Montejo Navas, revista Lapiz, n. 182, Madri, 2002.
Montejo Navas, Adolfo. “Fantasmagorias da Luz”. In “Claraluz”,Centro Cultural Banco do Brasil, São Paulo, 2003.
O Iluminismo Tropical de Regina Silveira
Martin Grossman, 2003.
O iluminismo de Regina Silveira possui certas correspondências com o Iluminismo na Europa, investigação filosófica que surgiu no século XVIII. Ambas são filosofias das luzes. Atreladas ao conhecimento científico, prezam não só processos de reflexão e entendimento de questões sociopolítico-culturais como também uma atuação consciente nesses contextos. A tolerância e o liberalismo são outras características em comum. Regina Silveira como artista-produtora incute esse tipo de posicionamento com sua obra, sua postura e ensinamento.
Primeiramente faz-se necessário esclarecer o uso do termo “iluminismo”, assunto tratado por pensadores como Immanuel Kant (1724-1804), Walter Benjamin (1892-1935), Max Horkheimer (1895-1973), Theodor W. Adorno (1903-1969), Michel Foucault (1926-1984) e Andreas Huyssen (1942). No entanto, o texto que norteia esse esclarecimento é O Que É Iluminismo? de Michel Foucault .
Esse texto de Foucault comenta, atualiza e expande as questões levantadas em outro texto, com o mesmo título, de Immanuel Kant, publicado no periódico alemão Berliner Monatschrift em novembro de 1784 . “O que é o Iluminismo?” foi uma pergunta lançada aos leitores dessa revista para uma questão em evidência, mas pouco conceituada naquele momento. Kant foi um dos que aceitou o desafio de respondê-la. Foucault reacende essa discussão, pois a considera fundamental para entendermos o que é a filosofia moderna. Para ser mais preciso, Foucault afirma que a filosofia moderna é a filosofia que está tentando responder a essa questão levantada dois séculos atrás. Foucault também reinstaura esse questionamento uma vez que é de fundamental importância para o seu próprio pensamento, como ele mesmo atesta em passagens do seu texto e em outros momentos de sua obra.
O argumento inicial e norteador de Foucault é o de que Kant, nesse conciso texto, reflete de maneira singular e inaugural a própria atualidade discursiva da filosofia, ou seja, Kant discute a pertinência de seu próprio pensamento, ou do discurso do filósofo, na conjuntura contemporânea da filosofia. Nas palavras de Foucault:
(…) para o filósofo, colocar a questão de seu pertencimento a este presente, não será de forma alguma a questão de sua filiação a uma doutrina ou a uma tradição; não será mais simplesmente a questão de seu pertencimento a uma comunidade humana em geral, mas o seu pertencimento ao um certo "nós", a um nós que se relacione com um conjunto cultural característico de sua própria atualidade.
Para Foucault, portanto, a novidade desse texto está no interesse de seu autor na condição sincrônica do pensamento filosófico, na filosofia como reflexão no agora.
"Tenha coragem em usar a sua própria razão!" — esse é o lema do Iluminismo.
Essas são as palavras iniciais do texto de Kant. Elas são ditas em voz alta, clamam por autoconfiança, por uma predisposição a uma atuação consciente no tempo-agora, enfim, são fruto de uma atitude crítica no interior da condição na qual o sujeito se insere. Esse posicionamento de Kant leva Foucault a considerar que o Iluminismo precisa ser entendido duplamente, como um processo no qual os homens participam coletivamente e como um ato de coragem a ser exercido pessoalmente. Isso facilita a compreensão de que o Iluminismo, para Kant, seria um processo capaz de libertar-nos de um estado de imaturidade, de um estado de subjugação que impossibilita o exercício da liberdade. Nesse sentido o Iluminismo seria antes de mais nada uma reavaliação da atividade intelectual independente, contextualizada em uma situação que considera simultaneamente o uso universal, livre e público da razão. Ou seja, a razão não se justifica pela própria razão, pois está, inevitavelmente, condicionada a valores espirituais, institucionais, éticos e políticos. Nesse cenário, o elemento regulador e mediador no uso individual e público da razão é a crítica.
Usos ilegítimos da razão favorecem o aparecimento do dogmatismo e da heteronomia, acompanhados da ilusão; por outro lado, quando o uso legítmo da razão for claramente definido em seus princípios, a sua autonomia pode ser salvaguardada.
Cabe à crítica o questionamento da atualidade, o questionamento dos campos das experiências contemporâneas. Cabe a ela também a orientação e o controle da razoabilidade visando à sua legitimidade. Foucault denomina essa crítica de “analítica do presente”, “uma ontologia de nós mesmos”, “uma ontologia da atualidade”. Foucault relaciona o seu pensamento a essa forma de filosofia instaurada por Kant e que perpassa, entre outros, os pensamentos de Hegel, Nietzsche, Max Weber e da Escola de Frankfurt. Para Foucault, o que une essas diferentes contribuições a essa peculiar investigação filosófica não é apenas a permanente reativação da crítica mas uma atitude crítica, um etos, “que pode ser descrito como uma crítica permanente de nossa era histórica”.
O texto de Foucault é inspirativo não só por reacender a discussão sobre as questões debatidas até aqui mas por promover uma das grandes virtudes do Iluminismo: a tolerância. Sem diretamente citar autores, ele reavalia visões mais negativas acerca do Iluminismo como as de Adorno e Horkheimer em A Dialética do Iluminismo (1947) . Foucault não menospreza e tampouco minimiza esse tipo de abordagem, apenas redireciona o debate, visando resgatar as qualidades inatas do Iluminismo e principalmente o seu maior diferencial: sua capacidade em fomentar “uma crítica ontológica de nós mesmos”.
Uma crítica ontológica de nós mesmos não pode ser considerada, certamente, como uma teoria, uma doutrina, nem mesmo como um corpo permanente de conhecimento acumulativo; ela deve ser concebida como uma atitude, um etos, uma vida filosófica na qual a crítica do que somos é simultaneamente uma análise histórica dos limites que são impostos sobre nós e um experimento que possibilita irmos além deles.
Esse último parágrafo descreve sinteticamente não só o espírito do etos do Iluminismo como o da obra de Regina Silveira. Na verdade, o que foi dito a respeito do Iluminismo até este momento cabe perfeitamente, por analogia, na obra de Regina Silveira. Seria, então, Regina Silveira um raro caso de um iluminismo tropical?
Considerando as marcantes diversidades contextuais que diferenciam a nossa cultura da européia, outros questionamentos se seguem: é possível um iluminismo no Brasil? Um iluminismo na periferia da cultura eurocêntrica? Um iluminismo brasileiro? Ao que tudo indica, temos, sim, na obra de Regina Silveira indícios concretos de que se trata de um iluminismo tropical. Quase uma impossibilidade, certamente um paradoxo, mas não há dúvida de que se trata de uma singularidade, de um caso atípico em nosso contexto cultural.
Literalmente, uma atitude iluminista é aquela que dissemina luz onde anteriormente a escuridão perdurava. Isso corresponde diretamente à condição européia, ao seu legado histórico e à sua situação geopolítica. Por outro lado, geográfica e culturalmente, o Brasil nunca viveu na escuridão. Em contraste com a condição européia, o que aqui se apresenta é uma imensidão territorial banhada por uma luminosidade intensa que a tudo homogeneiza. O comando da luz sempre encontrou dificuldades em exercer sua capacidade de discernimento, orientação e análise em paragens onde a luz é estonteante. Por ser um país de grande diversidade cultural, não existe de fato uma luz ou até mesmo uma luminância que se destaque das demais. Não há um farol-mestre na cultura brasileira. O que existe, além da luz tropical, é uma configuração informal de outras fontes luminosas de diversas intensidades: lumeeiras, luzeiros, luminárias, luminosos…
Um farol que emana luz negra. Regina Silveira instaura um iluminismo às avessas, um iluminismo nas bordas da cultura eurocêntrica e no centro de uma cultura relativizada, híbrida e precária: a brasileira. Numa analogia com a geometria topológica, poderíamos denominar esse iluminismo de topológico, pois idealizado e gerido por outra epistemologia, compatível com as condições locais e mais maleável a mudanças e interferências do que a do Iluminismo europeu, fortemente influenciado pelo desejo de se estabelecer parâmetros universais para a razão. Os principais recursos do iluminismo trópico-topológico de Regina Silveira são, além da crítica e da autocrítica, a metalinguagem, a ironia e a reversibilidade; e as principais virtudes: a tolerância, a flexibilidade, a adaptabilidade, a perseverança, a constância e a coragem. No enfrentamento da impetuosa luminosidade natural de nosso território que ofusca qualquer desejo de nitidez e coerência ou até mesmo de esplendor, Regina põe em prática uma estratégia que tem como base o universo da grafia: ela joga com o preto. Em resposta a uma das perguntas feitas por Angélica de Moraes na entrevista publicada no livro Regina Silveira, Cartografias da Sombra, a artista dá a pista:
“Acho que pinto em preto. Isso é brincadeira.” (…)
Brincadeira não, um comentário crítico sobre a própria produção. Regina não pinta mais, mas domina plenamente as táticas, artifícios, técnicas, convenções e repertórios dos meios tradicionais dos quais já fez uso intenso, deslocando-os para novos campos, para as novas dimensões que seu trabalho vem conquistando ao longo dos anos.
O seu trabalho deixou de ser gravura ou pintura no início da década de 70 e tornou-se extrapolação, uma arte híbrida, buscando sempre e simultaneamente conquistar novos conhecimentos e superar os limites do já conhecido e do já categorizado. Como amplamente comentado a respeito de sua obra por outros críticos, Regina tem utilizado e principalmente se apropriado de técnicas, procedimentos e aplicações não só dos meios tradicionais como também das novas mídias. Além da pintura, da gravura, do desenho, Regina se apropriou, entre outros e sem grandes vacilos ou temores, dos recursos e das possibilidades oferecidas pela fotografia, pelo vídeo, pelo xerox, pelas mídias eletrônicas e digitais. Pari passu com essas experimentações de ponta, Regina foi buscar novos suportes para a sua grafia migrante em técnicas milenares, como a cerâmica e a tecelagem (vide as louças e os tapetes). Regina Silveira demonstra claramente sua intrepidez e sua consciência no emprego e na aplicação de sua razão:
Gostaria que minha participação nessa conversa fosse uma espécie de reflexão sobre o comportamento do artista em relação aos diferentes meios. É claro que a base é a minha atividade como artista que tem utilizado diferentes meios, os meios artesanais ou meios tecnológicos, para definir atitudes frente a conjuntos de idéias. Aqui os meios funcionam como recursos que ampliam ou possibilitam uma melhor realização de idéias. Sempre tive uma profunda curiosidade pelos modos de realização das imagens, o que é também curiosidade pela natureza da representação em si. É isso que motiva meu trabalho e também o de toda uma geração de artistas que transita num tempo onde as coisas fluem, estão constantemente se transformando e consolidando novas práticas e intervenções estéticas.
O iluminismo de Regina Silveira toma corpo quando ela decide explorar os recursos que as artes gráficas oferecem no início da década de 70. Interessada no que há de mais atual na esfera da reprodutibilidade no contexto da indústria cultural e disposta a experimentar as novas técnicas, ela investiga em particular as potencialidades que a fotografia apresenta quando transposta para esse “novo mundo”. Assim como Walter Benjamin, Regina investe na crença de que a função da arte sofrerá significativas transformações epistemológicas quando associada ao desenvolvimento das modernas técnicas de reprodução da imagem . Sem esquecer das lições que ela obteve da pintura e da gravura na etapa anterior de seu trabalho, Regina dá forma ao seu vocabulário gráfico, desenvolve sua linguagem, estrutura sua estratégia iluminista. O papel é o suporte principal de sua obra nessa década, assim como a base primordial de seu trabalho. É nele que a sua grafia é elaborada e registrada, servindo não só como uma espécie de mapa do agora como também de um visor que projeta as suas futuras incursões por dimensões ainda não exploradas.
Regina, com o passar do tempo, elege e investe em alguns ideogramas que serão os condutores de sua grafia migrante em sua trajetória iluminista. Alguns deles merecem atenção especial.
O cavalete comanda essa reflexão. É ele que registra a conquista do espaço, como novo suporte para futuras inserções em In Absentia: para Giselda Leirner, obra realizada no MAM-SP em 1982. Ele estará presente em outros momentos marcantes, como em situações que dialogam com os pressupostos institucionais do Cubo Branco , no caso a exposição Ao Cubo realizada no Paço das Artes em São Paulo em 1997, e em situações “site-especific”, como foi o caso de Desaparência (2001-2002) elaborada especialmente para o Torreão em Porto Alegre.
A mão também merece destaque. Sua inserção é comandada pela ironia. A irreverência ao virtuosismo ou habilidade manual já está presente em uma série, elaborada em conjunto com Júlio Plaza em meados da década de 70, intitulada Saber Pintar — Série Didática. No entanto, essa mão, que joga com o seu próprio mito, consolida-se no ínicio da década de 80, com a série Arte de Desenhar que emprega diversos suportes como o vídeo, o xerox e a serigrafia. A mão também esteve presente no projeto Arteacesa de 1982, no qual um grupo de artistas desenvolveu propostas específicas para um dos primeiros painéis eletrônicos instalados no Brasil, situado no centro da cidade de São Paulo. A mão, em situações dúbias, aparece também em outras circunstâncias, como nas louças e nas caixas de madeira.
A ironia na utilização da mão estende-se por intermédio de outro ideograma: o revólver. O emprego do revólver beira o sarcasmo, pois com esse elemento Regina comenta, com acidez, os descabidos anúncios da morte da arte. Revirando sentidos, o revólver acaba representando a capacidade que a arte tem de extrapolar os limites que ela mesma se impõe.
Ideogramas com estreito parentesco são as cadeiras e os auditórios. Curioso é notar que as cadeiras surgem de uma performance realizada no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo em 1977. Nesse momento, as cadeiras são meras cadeiras, pois mantêm sua função de acomodar pessoas. Nessa performance, Regina brinca com a idéia da participação do sistema da arte na produção da arte. Enfileira cadeiras ao longo de uma parede central do espaço desse museu no Pavilhão da Bienal e pede para que os funcionários do museu tomem assento junto a ela e que participem de seu Jogo do Segredo. Sete anos depois, em 1984, no mesmo museu, Regina compõe uma espécie de auditório por meio da projeção, em seqüência, da silhueta de uma mesma cadeira, na mesma parede que serviu de apoio para a sua performance. Dessa vez, os participantes do sistema da arte foram excluídos. Não é só a ausência de seus ocupantes que é sentida mas também a da própria cadeira. A grafia se impõe e deixa rastros na instituição. A representação gráfica da cadeira, agora como ready-made, tomará tanto a forma de conjunto como na série de auditórios que Regina realizou em diferentes ocasiões, ou mesmo como ícone, individualmente, como em Inflexões de 1986 ou mais recentemente na série Dobras de 2001.
Outro ideograma recorrente é a escada. Elemento surrealista, indica possibilidades de extrapolação dos confinamentos espaciais auto-impostos pelo sistema da arte. Textos como No Interior do Cubo Branco e ações de outros artistas em espaços da arte têm demonstrado criticamente essa condição perversa imposta pelo próprio sistema. Até mesmo eventos de grande escala como as Bienais ou Arte-Cidade também acabam tendo o mesmo destino ao restringir as ações da arte. A origem da escada na obra de Regina Silveira está em Projectio 2 de 1984. De lá para cá, essa escada, que indicava possibilidades de ascensão, inverte seu comentário, transformando-se em vórtices que engolem a tudo e a todos. O trabalho que maximiza essa situação é a instalação imersiva 3D Descendo a Escada de 2002. Essas escadas são mais “realistas”, pois são como passagens de acesso às bases da arte. Mesmo indicando caminhos, Regina demonstra que esses são, além de obscuros, tortuosos e complexos. A construção de uma atuação consciente nos contextos da arte não é tarefa fácil.
As pegadas e as moscas são ideogramas do humor. Claro que estão munidos de alta dose de ironia e crítica, mas o humor sobressai. Esse é de fundamental importância em qualquer empreitada que visa à construção e à exposição de um razoado, principalmente nos trópicos. As pegadas, além de serem rastros do inconsciente e indícios de nossa selvageria, servem como alerta para a arrogância do sistema da arte, que menospreza o seu papel social e a sua inserção em um contexto muito mais complexo do que o seu próprio. Essa é uma das muitas leituras possíveis da invasão de patas no Museu, na Galeria e na Bienal 12. As moscas também podem ser entendidas nesse mesmo sentido, mas talvez possuam caráter mais prospectivo do que reflexivo. As moscas não só seguem os destinos do Super-Herói de 1997 — invadindo megaestruturas como as cidades, ampliando descaradamente os limites da arte — como também “aninham” novas idéias, como é o caso de Nightmare de 2000.
Após a exposição de uma parcela dos ideogramas que participam da grafia de Regina Silveira, fica evidente a participação da sombra nesse conjunto. Provavelmente, devido à sua capacidade de contrastar com o branco do papel e das paredes e — por que não — com luz que banha nossas paragens, as sombras tenham recebido maior destaque do que os demais ideogramas.
Regina lança a sombra como ideograma, já em grandes dimensões, no começo da década de 80 com os Dilatáveis. A sombra migra da parede para o espaço com a série In Absentia. É nessa instância que a artista demonstra sua capacidade de construir uma crítica consistente e transformadora no interior do sistema da arte. As sombras na década de 80 são comentários sobre a arte, que abarcam desde questões históricas até anotações sobre a situação da arte na atualidade. No entanto, o emprego das sombras não se restrige ao comentário crítico sobre a arte, abarca outras conotações, como, por exemplo, de cunho político, em o Paradoxo do Santo (1994-2002), e de ordem metafísica, em Equinócio (2000-2002).
No entanto, são duas as obras em que esse espírito crítico alcança seu ápice tornando-se quase uma ficção científica ou um filme de terror (dependendo do ponto de vista): uma é a grande instalação em homenagem a Cézanne intitulada A Lição, de 2002, e a outra é o projeto — não realizado até o momento — Todas las Noches, de 1990, especialmente idealizado para o Museo de Arte Contemporaneo de Monterrey, no México. Nesse último caso, a sombra encobre ou invade, de fato, boa parte do museu e seu mobilário. O iluminismo eurocêntrico da instituição da arte é eclipsado pelo iluminismo tropical de Regina Silveira.
A exposição Claraluz no Centro Cultural Banco do Brasil em São Paulo é uma esclarecedora ironia, pois revela não só que a obra de Regina Silveira emana da luz como desvela o seu etos iluminista. Esse esclarecimento promovido por Regina Silveira é uma esperança ou até mesmo um indício de que a arte brasileira conquista a sua maturidade.
NOTAS
1 -
ß Versão francesa: Qu’est-ce que les Lumières?, Magazine Littéraire, nº 207, mai 1984, pp. 35-39
(URL:http://foucault.info/documents/whatIsEnlightenment/foucault.questcequeLesLumieres.fr.html)
ß Versão em inglês What Is Enlightenment? IN RABINOW, Paul (ed.) The Foucault Reader, London, Peregrine, 1984, pp. 32-50
(URL http://foucault.info/documents/whatIsEnlightenment/foucault.whatIsEnlightenment.en.html)
ß versão em português O que É o Iluminismo? é uma tradução da versão francesa IN Dits et Écrits, Paris, Gallimard, 1994, Vol. IV, pp. 679-688 por Wanderson Flor do Nascimento e está somente disponível em formato eletrônico na URL: http://www.foucault.hpg.ig.com.br/iluminismo.html
OBS.: Há uma significativa diferença entre as versões inglesa e francesa. A francesa é uma transcrição de uma aula de Foucault (um resumo portanto) e o texto em inglês é a versão completa do texto. Portanto, a referência central neste meu texto é a versão inglesa.
2 - Versão eletrônica em inglês desse texto de Kant está na URL:
http://foucault.info/documents/whatIsEnlightenment/kant.whatIsEnlightenment.en.html
3 - FOUCAULT, Michel. O que É o Iluminismo? Versão eletrônica em português
http://www.foucault.hpg.ig.com.br/iluminismo.html
4 - FOUCAULT, Michel. What Is Enlightenment? IN RABINOW, Paul (ed.) The Foucault
Reader, London, Peregrine, 1984, p. 38 (tradução do autor)
5 - Veja site com textos do livro de Adorno e Horkheimer Dialética do Iluminismo em
http://planeta.clix.pt/adorno/
6 - FOUCAULT, Michel, What Is Enlightenment? IN RABINOW, Paul (ed.) The Foucault
Reader, London, Peregrine, 1984, p. 50 (tradução do autor)
7 - MORAES, Angélica de (org.) Regina Silveira: Cartografias da Sombra, São Paulo, Edusp,
1995, p. 95
8 - Fala da própria artista em debate “Arte e mídia: os meios como modo de produção
artística”, organizado pela revista Galáxia (revista transdisciplinar de comunicação,
semiótica e cultura do Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica
da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) em 21 de junho de 2002. O debate foi
publicado em seu nº 4 , em outubro de 2002 pela Educ, pp. 195-220
9 - Vide HUYSSEN, Andreas, A Política Cultural do Pop. IN Memórias do Modernismo, Rio de
Janeiro, UFRJ, 1997, pp. 94-122
10 - O’Doherty, Brian, No Interior do Cubo Branco, A Ideologia do Espaço da Arte, São Paulo,
Martins Fontes, 2002
11 - Ibid Idem
12 - Na seqüência: Gone Wild (1996), no Museu de Arte Contemporânea de San Diego, EUA;
“intro (re: fresh widow, r.s.)” (1997), Casa Triângulo, instalação site-specific, São Paulo, e
Tropel (1998) na XXIV Bienal Internacional de São Paulo, Brasil
Grossman, Martin. “O Iluminismo Tropical de Regina Silveira”. In “Claraluz”, Centro Cultural Banco do Brasil, 2003.