Um certo poeta uruguaio, talvez tensionado pela herança atávica das estranhices que rondam a condição latino-americana, anotou que o sentido estético surgia antes de coisas como o encontro de um guarda-chuva e uma máquina de costura sobre uma mesa de operação. Numa outra latitude, Eisenstein percebia maravilhado que o sentido na escrita chinesa se formava pela justaposição entre signos independentes: uma faca + um coração = tristeza; uma boca + um pássaro = cantar. E viu nisso o princípio de sua estética cinematográfica: o sentido como função de uma aproximação, de um conflito, uma colisão entre signos autônomos: o sentido surgindo de uma incongruência resolvida esteticamente.
O horizonte destes trabalhos com sombras de Regina Silveira é essa montagem, na compreensão específica de jogo de aproximações e colisões de signos de proximidade insuspeitada. Será pretensão inútil, porém, tentar desmontar seus ideografos: vejo uma bolsa e a sombra de uma serra: bolsa + sombra de serra = quê? Telefone + sombra de garfo = ? A incógnita é tanto mais movediça quanto de um lado há o signo próximo de um objeto (bolsa) e, de outro, a sombra distanciada do signo do objeto: duas dimensões distintas em queda livre na direção de um terceiro significado virtual.
Toca-se em que, com essa somatória? Pela tradição, todo produto estético desdobrava-se em duas vertentes, conteúdo e forma. Mas há uma terceira margem, a da matéria: aquilo que é a substância primeira do ato poético e que receberá num segundo momento uma certa forma que por sua vez se reveste de um conteúdo exteriorizado. Matéria não é forma, nem conteúdo. É a mola de ambos, o poético em estado extremado: a ideia do poético, a sensação primeira do poético. Os ideografos de Regina apontam nessa direção. Não é o conteúdo que está em jogo, não há interesse por uma eventual mensagem descritível em termos lógicos convencionados; tampouco interessa a forma exterior. A proposta é evidenciar a matéria do ato poético: o momento de contato direto com algo apenas virtual: a descoberta poética, agora, de um possível. O contato, agora, com um virtual: a resultante não está aqui, mas se percebe sua presença. Jogo de espelhos: imagem indefinida rebatendo uma sombra refletindo uma imaginação de algo que pode existir. Esse algo não está aqui, mas sua presença é palpável. Inefável, palpável: jogo de descoberta.
Jogo arquitetado com rigor: a base é a intuição, mas recusa-se a facilidade. O provocador (nome do que insistem em designar por artista) arma seu jogo: é uma construção, uma artificialidade extrema levantada para se chegar a uma sensação inconstructa. Novamente, a colisão: o artifício e o informe. É que não interessa a competência na construção, nem um saber fazer, nem o produto acabado. O produto não está acabado, não é nem um produto novo, não é o novo que importa: interessa é o desconhecido - a preparação, a construção do desconhecido. Não se está no surreal, no hiporreal: tudo se passa sobre o real: no virtual.
E as sombras nas fotos de Regina não estão apenas ali onde são vistas, não são aqueles traços do garfo pente martelo serra. A sombra é tudo, a sombra é o conjunto, a sombra é princípio e a mola do jogo. Sombra: o duplo, o outro. Função da sombra: revelar, mostrar a fundo o que há para ver (e revelar é velar de novo). A sombra deriva, escapa do lugar, se estende, abarca. Está ali, está em outro lugar. Está na obra e no produtor da obra - e no espectador. A sombra final cai sobre o espectador, é a sombra dele. A sombra é o espectador
E eram uma só sombra longa
E eram uma só sombra longa
E eram uma só sombra longa...
A busca em um dicionário sempre surpreende: as definições das palavras que acreditamos conhecer incluem muito mais do que a explicação do seu significado mais convencional, e nos sugerem acepções inesperadas, ao passo que nos fazem ver os múltiplos deslocamentos metafóricos das palavras para outros usos corriqueiros, de cuja conexão com o termo original, porém, não estávamos cientes. E o dicionário faz isso nos remetendo sempre a outras palavras, usualmente similares, mas com frequência muito diferentes. A definição de uma palavra sempre tem vestígios das que a antecedem; cada palavra é a sombra de muitas outras.
Esta exposição propõe um percurso particular por meio da obra de uma artista tão prolífica como é Regina Silveira. Apesar daquilo que o título poderia sugerir, este percurso não é cronológico nem linear, e sim mais labiríntico. De fato, são muitos os percursos possíveis. A exposição é estruturada como um labirinto cuja finalidade é ambígua: conduz, mas desorienta; não tem apenas uma saída, mas muitas possíveis; e a motivação principal ao adentrar nele não é a busca de como sair, e sim a aventura de percorrê-lo. Trata-se de um quebra-cabeça por desvendar, de um jogo de descobertas.
Linha de sombra propõe diversas formas de compreender um conceito amplo e complexo como o de sombra, cuja definição mais comum é uma ausência parcial da claridade provocada por um corpo iluminado. No entanto, talvez poucas palavras contenham significados tão distintos, literais ou figurados, quanto sombra: claridade atenuada; sinal ou marca; fantasma ou espectro; abajur, rastro ou vestígio; sonho ou aparência; ideia vaga ou noção sutilmente insinuada de algo; segredo, mistério. A exposição é também um dicionário, no sentido de que dá pistas ao leitor, ao passo que o extravia. Tal como um dicionário, que tenta definir um conceito, mas ao mesmo tempo o abre para outras possíveis interpretações, esta exposição pretende mostrar diferentes linhas de ação no trabalho de Regina: o uso de sistemas de projeção e representação perspectiva; o interesse pela anamorfose, método de deformação geométrica que produz imagens enigmáticas e estranhas; a extensão do conceito de sombra para o de vestígio, mostrando que o rastro é um índice, determinado pela relação real que mantém com o objeto que o gera - porém, dando um tratamento tão livre ao rastro que esta relação indicial fica sempre em situação de limite; o tratamento irônico dos temas, desaparecendo o referente para romper a relação que há entre um objeto e sua sombra e convidando o espectador a decifrar o que a presença daquele fantasma no espaço sugere.
Em “Regina Silveira: a revelação da sombra”, o texto com o qual Teixeira Coelho apresentava a exposição dos Enigmas em 1981 - onde as sombras faziam sua aparição pela primeira vez de forma literal no trabalho da artista -, o autor se serve do neologismo ideografos (palavra análoga a ideogramas) para descrever as obras: o somatório ou justaposição de dois ou mais signos, cujo significado não está claramente definido nem pretende estar: “colisões de signos de proximidade insuspeitada”. Coelho argúi que aquilo que a obra de Regina quer evidenciar é a própria matéria do ato artístico, resultado da confluência entre a forma e o conteúdo, mas situado para além de uma simples justaposição simbólica entre esses dois elementos. “Não é o conteúdo que está em jogo, não há interesse por uma eventual mensagem descritível em termos lógicos convencionados; tampouco interessa a forma exterior. A proposta é evidenciar a matéria do ato poético: o momento de contato direto com algo apenas virtual: a descoberta poética, agora, de um possível. Esse algo não está aqui, mas sua presença é palpável. Inefável, palpável: jogo de descoberta”. As obras de Regina comportam-se como um enigma: têm múltiplos sentidos, pelo que evidenciam que nunca há um sentido último e definitivo, ou que talvez não há um sentido, um significado ao qual poderemos ter acesso algum dia.
Nessas primeiras obras, Regina sobrepõe sombras a outras imagens (um garfo sobre um telefone, uma serra sobre uma mala), criando signos - ideografos - paradoxais e indecifráveis. Mais adiante, utiliza a própria arquitetura como suporte do signo (projetando a sombra de objetos ausentes sobre as paredes do museu, deixando rastro de cristais quebrados no piso do Palácio de Cristal), despindo-a do seu caráter neutro e dotando-a novamente de uma força significante. Um terceiro elemento nesse jogo é o papel do espectador. Ao gerar múltiplas perspectivas e diversos pontos de fuga, a artista consegue desestabilizar as posições unívocas e os pontos de vista privilegiados, convidando a percorrer a obra e introduzindo uma dimensão temporal na experiência, na qual a percepção varia dependendo da posição do espectador com relação à imagem. Nas obras de Regina há sempre uma tensão, um contraste entre elementos aparentemente incongruentes. Nela, coincidem uma vontade racional de apreender a realidade pelos sistemas clássicos de representação e um impulso surrealista, que nos remete a essa linha genealógica que a liga, por meio do seu mestre Iberê Camargo, a Giorgio De Chirico, que foi, por sua vez, mestre do pintor de Porto Alegre. Retículas maneiristas, paradoxos surreais, estratégias conceituais e reflexões poéticas sobre a tecnologia conjugam-se em uma obra ambígua, sedutora e intrigante, que nunca cessa de surpreender.
Citamos Coelho novamente: “Função da sombra: revelar, mostrar a fundo o que há para ver (e revelar é velar de novo)”. O artista surrealista Hans Arp, contemporâneo de De Chirico, afirmava que, se um objeto tridimensional projeta uma sombra de duas dimensões, temos que ser capazes de encontrar aquele objeto em quatro dimensões, pois dele somos sombra. Os jogos de signos de Regina Silveira podem ser pensados como uma tentativa de apreender esse fugidio objeto multidimensional, no qual nos reconhecemos como sombra.
Alejandro Martín e José Roca.
Bogotá/Filadélfia, 2009.
