Sobre as maquetes
Regina Silveira
Costumo fazer inúmeras maquetes de trabalho, mas não as conservo. Elas são sempre de construção mais precária e funcionam como lugares em escala, para experimentações diversas. Quando todas as decisões foram tomadas e o trabalho está em execução na escala real, esses modelos, geralmente feitos em papelão, muitas vezes já nem existem mais.
Minha decisão de fazer maquetes que funcionem como memória e documento sempre esteve associada a certa aflição com a efemeridade. Construir estes modelos em escala foi sonhar a permanência de obras que eu, desde os anos 1980, projetava para espaços arquitetônicos específicos, inicialmente executados com pintura, e que via desaparecer, quase sempre em um par de meses.
Durante algum tempo, construí rigorosamente todas as maquetes na mesma escala, com o propósito de organizá-las um dia como retrospectiva em miniatura. Logo desisti da escala comum, sobretudo pelas dimensões mais extensas que os trabalhos tomaram no real.
Ultimamente, essas maquetes se restringem cada vez mais a obras associadas a arquiteturas específicas, porque esta ainda é a fatia de minha produção que persiste como majoritariamente efêmera. Mesmo que, com os anos, descobrisse a potencialidade das matrizes digitais para recriar o mesmo e fazer migrar imagens, estes trabalhos costumam viver apenas uma vez, pelas próprias circunstâncias que os convocaram. De qualquer forma, todas as maquetes, desde o início, mantiveram os mesmos objetivos: ser documento que sirva de memória do original, como obra miniaturizada. Elas podem ser construídas com bom intervalo de tempo depois da execução do trabalho, e algumas vezes são apenas memória de um projeto que não chegou a ser executado.
Regina Silveira traduz sua pesquisa de espaços
e perspectivas em maquetes de suas instalações
Na Ocupação Regina Silveira é a própria artista quem dita as regras desta viagem a seu universo criativo ao reunir, em ambiente que remete a um estúdio-ateliê, em forma
de maquetes 10 de suas obras que, em escala real, jamais poderiam estar lado a lado
Um dos principais nomes da arte contemporânea brasileira, Regina Silveira ocupará o Piso Paulista do Itaú Cultural e reunirá em um mesmo espaço a “recordação fisicalizada” de dez obras que marcaram sua produção nos últimos quatro anos. Em Ocupação Regina Silveira, a própria artista cria a cenografia que remete ao espaço de seu ateliê, com duas grandes mesas nas quais são colocados os estudos que fez para seus projetos. A mostra abre no dia 11 de agosto, com coquetel para convidados, e permanece aberta ao público do dia 12 de agosto a 2 de setembro.
Regina foi convidada pelo Itaulab - Núcleo de Arte e Tecnologia do instituto - a ocupar o espaço e propõe uma visão singular sobre estes trabalhos em grandes dimensões ao expor maquetes produzidas depois das instalações prontas, como forma de eternizar o efêmero de sua obra. Como projetos arquitetônicos feitos a posteriori, elas serão exibidas em conjunto com recortes em escala real, colocando em foco a sensação da verdadeira medida para cada obra. É uma oportunidade única de visualizar e, de certa forma, vivenciar diversas obras da artista que jamais poderiam estar juntas devido às proporções e, principalmente ao seu caráter transitório.
Além disso, lâminas com estudos do projeto de cada uma delas permitem ao publico um acesso ao processo criativo da artista ao expor a maneira como cada uma foi sendo solucionada antes de se tornar uma instalação. A exposição traz, ainda, uma vídeo-instalação do cineasta André Costa em que três vídeos são exibidos simultaneamente mostrando trechos de gravações retirados do acervo pessoal de Regina. Nas telas colocadas lado a lado se revela o making-of das instalações que, posteriormente, se tornaram maquetes e o visitante é convidado a refletir sobre o processo de criação que envolveu cada uma delas.
As maquetes
As obras desta exposição correspondem a trabalhos em espaços e arquiteturas diversas, no Brasil e no exterior, feitos entre 2004 e 2007. Todas foram realizadas dentro do estúdio da artista. Lúmen, que ocupou o Palácio de Cristal, do Museo Nacional Centro de Arte Reina Sofía em 2005, e Derrapagens, de 2006, foram produzidas pela artista com Roberto Gorgati.
As outras sete maquetes contaram com o trabalho de Renato Pera e Marcelino Ros Lopez. São “espaços miniaturizados”, nas palavras de Regina, das obras Mundus Admirabilis (2007), Intro (2005), Irruption (2005), Saga (2006), Desapariencia (2004), Frenazos (2004) e Observatório (2006).
Regina começou a produzir maquetes de suas instalações no início dos anos 80, de modo a eternizar projetos que seriam necessariamente efêmeros. “Fazer maquetes foi sonhar a permanência de obras que desapareciam quase sempre em um par de meses, ou pouco mais”, explica a artista que conta ter construído também outras de obras que ainda não foram realizadas. Estes trabalhos foram criados por uma vontade da artista de conseguir, de alguma forma, visualizar a obra além da tela de computadores e dos desenhos sobre fotografias e projetos que costumam acompanhar o processo criativo de suas instalações.
A artista já expôs por duas vezes estas mini-obras. Na exposição In situ, em cartaz no Centro Cultural São Paulo (CCSP) em 2004, ela apresentou maquetes de obras produzidas entre 2004 e 2007. Em 2009, a artista apresentou 40 delas em uma exposição individual no Museum of Sketches, em Koege, na Dinamarca
Projeto Ocupação
Criada para fomentar o diálogo da nova geração de artistas com os criadores que os influenciaram, a série de ocupações no Itaú Cultural integra o trabalho perene do instituto com programas como o Rumos, que há 12 anos incentiva a produção contemporânea colaborando para o aprimoramento de criadores, a difusão de suas obras e a reflexão sobre a arte atual.
A Ocupação Regina Silveira é a sétima das que vem sendo realizadas desde maio de 2009. As edições anteriores foram dedicadas à apresentação da produção de artistas referenciais das artes visuais (Nelson Leirner e Abraham Palatnik), do teatro (Zé Celso), da literatura (Paulo Leminski), da música (Chico Science) e do cinema (Rogério Sganzerla). Este espaço permite que vários perfis de público tomem contato com a obra destes artistas, e, ainda, que a instituição direcione sua ação educativa para o aprofundamento e a compreensão de seu papel no universo artístico e social.