Passeio Selvagem

Regina Silveira, 2009.

Passeio Selvagem retoma, em termos de projeção luminosa, a linhagem de obras com pegadas de animais em configurações que metaforizam invasões selvagens de espaços, em arquiteturas interiores e fachadas, que venho realizando desde Gone Wild (1996) e Tropel (1998) até Tropel Reversed (2009).

Em Gone Wild pintei trilhas de coiotes em disparada no hall de entrada do Museum of Contemporay Art de San Diego, La Jolla, CA, em diálogo com o design arquitetônico do hall de entrada do museu, recém reformado pelo arquiteto Robert Venturi, e em alusão aos conflitos e ao papel dos “coyotes” naquela região de fronteira com o México.

Em Tropel, uma imagem digital de grande formato recortada em vinil e aderida à fachada lateral do prédio da Bienal de São Paulo, no Ibirapuera, misturei pegadas de animais de diversas espécies e latitudes, presas e predadores, numa configuração expansiva que simulava escapar de um fresta do edifício. O trabalho atendia a significados conectados com a Antropofagia, tema escolhido pela Curadoria da 24º edição daquele evento.

Na instalação Tropel (Reversed), um site specific atualmente em exposição no Køge Arte Museum (Museum of Sketches and Public Art), na Dinamarca –de 7 de março a 7 de agosto de 2009- distorcí e radicalizei a imagem do Tropel de 98, para torná-la muito esticada e fazê-la irromper no espaço interno do museu, também na porta de entrada e janela lateral, mas com maior presença no grande ático com cúpula de meia cana que cobre toda a arquitetura do edifício. Ali Tropel (Reversed) “reveste” tudo: a grande janela de vidro do extremo que corresponde à fachada, o chão, as paredes curvas laterais da cúpula, e ainda a escada que leva ao andar inferior, em configuração cujo total passa dos 700 m2.

A instalação integra um survey de obras recentes que dialogam com arquiteturas diversas, sob múltiplos enfoques, e que na exposição são mostradas na forma de maquetes, desenhos preparatórios e modelos digitais.

Passeio Selvagem deriva diretamente desta “ família” de realizações, com diferenças diversas.

Concebido originalmente como projeção luminosa a ser feita sobre o casario da praça central de Køge, em festival de arte pública (depois cancelado), este trabalho em animação digital deveria mostra-ser como uma espécie de fantasmagoria da luz, onde pegadas super-dimensionadas se sucedessem inexplicavelmente sobre aquelas fachadas, indicando animais ausentes ou invisíveis.

Com um padrão de pegadas mais aberto, aparecendo e desaparecendo em sucessão, Passeio Selvagem se mostra como fragmento ou “ janela” de uma narrativa maior, em que esta “bicharada” desce das fachadas e dos interiores arquitetônicos, para agora passear pelos muros da cidade e povoar magicamente o espaço urbano.

Regina Silveira
Maio de 2009