Contribuir para a passagem de uma arte do espaço para uma arte do devir, mais temporalizada, é uma prática instigante de hoje, sobretudo quando já sabemos que nosso habitat mudou tanto quanto nossas percepções. Estamos em outro regime de visualidade, e nesse contexto mutante inscreve-se a poética de Regina Silveira, já que, atualmente, talvez seja a artista que inclui dentro de seu trabalho essa problemática estética com mais determinação e frequ_.ncia. “Fora dos espaços protegidos da arte, o que se tem posto a funcionar - com força redobrada - é o poder transformador que a arte tem, quando proporciona novas experiências no real e consegue substituir o olhar indiferente por uma atitude mais curiosa e participativa”, segundo a artista. Nessa mudança, há toda uma vertente de seu trabalho que se vincula aos espaços arquitetônicos (primeiro mais interiores, mas depois lugares-umbrais e mais tarde inequivocamente exteriores, alternando-se no tempo como diferentes pesquisas), pois eles já se configuram como espaço-temporais in situ que incluem este fluxo contaminado de contatos e registros plurais que a cidade produz.
Se já na Renascença Vitrubio (em De Arquitectura, Liber primus) exigia como necessidade, além de outros saberes, “saber ler nos astros e estar familiarizado com o sistema celeste”, acaba sendo coincidente que a artista venha nos últimos anos mapeando uma cosmologia visual na qual nos inscrevemos como habitantes, ainda que perplexos com nosso olhar. A aparição cada vez mais frequ_ente do céu, do universo celeste, da luz como horizonte - de Equinócio (2000) ou Lunar (2002/2003) até na trilogia referenciada - não deixa de ter um componente alegórico (rico em significações). Paralelamente a esta circunstância, cresce na poética de Regina Silveira o jogo de vincular a visualidade virtual, como ficção, às vezes incorpórea, em contextos espaciais de grande materialidade. O que produz uma sensação de leveza e ao mesmo tempo uma densa vibração sensorial. Uma realidade paradoxal que repousa no próprio paradoxo das imagens, em seus efeitos, sempre dilatados, ainda mais quando o recurso da réplica do real (duplo dúbio) produz um ilusionismo às claras, e em consequ_.ncia, uma visualidade em suspenso.
Há muitos céus hoje, na arte. Sempre houve, na história da arte. Hoje, talvez mais - porque são personagens centrais, não apenas coadjuvantes de alguma outra cena. Não seria difícil para um estudo do imaginário buscar os motivos dessa tendência. Mas, por que, agora, um céu bordado, um céu portanto duplamente evidente? Talvez porque em São Paulo o céu nunca esteja visível, mesmo estando aí. Chegando a São Paulo por avião, o céu é uma barra marrom-amarelo pesando sobre a cidade e anulando o céu verdadeiro. Em Congonhas, há muito tempo, na abóboda do saguão interior que distribui as pessoas para seus destinos, havia uma abóboda e nela um céu pintado, “realista”. Congonhas é o teto de São Paulo, Congonhas já é o céu de São Paulo - mas também em Congonhas era preciso haver um outro céu a abrir um falso buraco para o céu real que os aviões furam a todo instante. Talvez sejam necessários vários céus em São Paulo, vários céus sobre São Paulo. Há uma história do céu sobre São Paulo, que agora inclui mais este.
Regina Silveira tem feito vários céus. Interiores, como no Museu Vale, em Vitória; e exteriores, como para uma biblioteca de Nova York (que ainda não se concretizou). Interiores, como na Pinacoteca, há não muito tempo. Exteriores, como este agora no MASP, enorme, envolvente. Regina trabalhou muito tempo em preto&branco, com sombras escuras, por vezes ameaçadoras. Agora convoca céus, azuis&brancos.
Seu tom, neste caso, é o de arte pública, arte urbana como se diz também, de modo talvez algo torto (a arte é sempre urbana ou não é). Como São Paulo ainda é muito feia, com uma arquitetura apressada, rabiscada, empacotada, apertada, sobreposta, num cenário comprimido, a arte pública deveria ser um recurso permanente. Ainda não é. Regina Silveira vem há tempos dedicando-se ao gênero, talvez mais no exterior, onde a receptividade e a consciência dessa necessidade são mais intensas. Mesmo assim, alguém se lembrará de um tropel que ela aplicou à fachada da Bienal, há alguns anos, e de outras instalações ou “passeios” (com projeções) menos ou mais provisórias pelas ruas da cidade. No exterior, dois casos se destacam: a fachada do Taipei Fine Arts Museum, de Taiwan, e o Palácio de Cristal em Madrid, antológicos em sua história pessoal.
Uma arte singular, a sua. Não é difícil de apreender - ao contrário de muitas outras que ainda insistem na rarefação do sentido -, sem deixar de ser sofisticada nos recursos e efeitos. Fazer um céu bordado poderia apontar para a opção por uma “arte de gênero”, como eufemisticamente se diz hoje em vez de apontar-se para o que está por trás dessa palavra: uma arte de sexo, com sexo. O céu é bordado, portanto, de acordo com o código pronto, seria um céu feminino, anti-feminista ou pós-feminista, conforme a leitura. É um céu bordado, um céu que precisar ser colado a uma fachada que nunca serviu tanto à arte como agora. O céu em São Paulo escapa aos olhos, portanto ao corpo, com assombrosa rapidez: o céu colado ficará estacionado algum tempo no MASP. Com ele, o tempo ficará também parado, como parados ficarão os que quiserem dele usufruir. Arte contemporânea contra o fluxo das coisas e no entanto arte contemporânea que em pouco tempo sumirá dessa fachada, ela também - uma arte que aceita sumir. A eterna precariedade dos céus encontra-se com a transitoriedade da arte atual, em harmonia passageira.
